Pedro Berlitz tem apenas 16 anos, mas já começa a aparecer entre os nomes de uma nova geração do vôlei masculino brasileiro. Levantador da base do Itambé Minas, o jovem viveu nas últimas semanas duas experiências importantes com a camisa da Seleção Brasileira: foi capitão na conquista do bronze no Mundial Sub-17, em Doha, no Qatar, e, poucos dias depois, subiu de categoria para integrar o grupo campeão do Sul-Americano Sub-19, em Araguari (MG).
Os resultados aparecem em um momento de atenção especial para a formação de novos jogadores no país. As categorias de base convivem com a expectativa por uma geração capaz de ajudar o Brasil a voltar ao protagonismo também entre os adultos. E, depois de anos de resultados abaixo da tradição brasileira em Mundiais de base, cada sinal positivo passou a ser observado ainda mais de perto.
Pedro foi um dos protagonistas dessa resposta no Mundial Sub-17. O Brasil terminou a competição com seis vitórias em sete partidas e conquistou o bronze ao derrotar a Argentina por 3 sets a 1. O levantador terminou o torneio como líder em aces, com 14 pontos de saque, além de ocupar lugar de destaque também nas estatísticas de levantamento.
O intervalo até o desafio seguinte foi pequeno. Pedro e outros três jogadores do Sub-17 foram chamados para se juntar ao grupo Sub-19. Em Araguari, o Brasil recuperou o título sul-americano ao derrotar novamente a Argentina, desta vez por 3 sets a 0 na final. A campanha terminou invicta e sem um set sequer perdido.
Em poucas semanas, Pedro passou de capitão de uma Seleção medalhista mundial a integrante de uma equipe dois anos acima de sua categoria. Tudo isso enquanto ainda dá os primeiros passos na base do Minas.
E existe uma ligação familiar impossível de ignorar. Pedro é filho do ex-levantador Rafael Martins de Almeida, o Rafinha, personagem conhecido de outra geração do vôlei brasileiro e com uma longa história no Minas. Pai e filho conversaram com o Web Vôlei sobre o começo no esporte, as diferenças entre os dois, a formação de um levantador, pressão, redes sociais, a nova geração brasileira e os sonhos para o futuro.
A relação de Pedro com o vôlei começou muito antes de qualquer convocação para a Seleção. Aos sete anos, enquanto a família vivia em Novo Hamburgo (RS), ele começou a brincar com a modalidade em um ambiente no qual o esporte já fazia parte da rotina.
O pai ainda jogava e a bola estava naturalmente presente em casa. No início, porém, vôlei era apenas diversão.
“Descobri o vôlei com sete anos, em Novo Hamburgo. Comecei mais por brincadeira. Com 11 anos fui para Porto Alegre e comecei a levar mais a sério. Aí não quis mais parar”, contou Pedro ao Web Vôlei.
A escolha pela posição também aconteceu de maneira quase natural. Filho de levantador, acostumado desde pequeno a observar o pai e a bater bola com ele, Pedro acabou seguindo exatamente o mesmo caminho dentro da quadra.
“A decisão de ser levantador foi natural também.”
Hoje, com 1,84m, ele começa a construir a própria história na posição que acompanhou desde criança.
Igual ao pai? Nem tanto
A comparação é inevitável. Mas Pedro já identifica características nas quais considera seu jogo diferente daquele apresentado pelo pai. E não perdeu a oportunidade de provocar Rafinha.
“Sou muito melhor no saque e defendo mais.”
O saque, aliás, já apareceu como uma de suas principais armas no Mundial Sub-17. Pedro terminou a competição em Doha com 14 aces, o maior número entre todos os jogadores do torneio.
Para Rafinha, porém, o fundamento não pode ser analisado apenas pela técnica.
“Confiança não se negocia.”
Na visão do ex-levantador, saque, defesa e tomada de decisão passam também pela segurança que o jogador desenvolve dentro da quadra.
“A gente aprende toque, manchete, ataque, mas a confiança é inegociável. Parte muito da técnica que ele tem e da confiança que ele tem para produzir.”
Rafinha enxerga no filho algumas características importantes para o vôlei atual, entre elas a agressividade no saque, a capacidade defensiva e a leitura do jogo.
“Ele tem uma consciência de jogo e uma consciência do que o vôlei pede hoje. Uma agressividade muito grande no saque e uma parte defensiva apurada. Ele tem isso.”
E a personalidade forte?
Há outra característica em que pai e filho se parecem. Quem acompanhou Rafinha dentro de quadra sabe que o ex-levantador nunca passou despercebido. Intenso, comunicativo e de personalidade forte, ele viveu a posição também pela capacidade de comandar o time.
O Web Vôlei quis saber de Pedro se essa característica também havia sido herdada do pai.
“Acho que sou até mais”, respondeu, entre risos.
Rafinha também entrou na brincadeira, mas reconhece a importância dessa personalidade para quem escolhe ser levantador. A posição exige comunicação, comando e disposição para assumir decisões em momentos importantes.
Para ele, levantador precisa saber conversar, cobrar e, quando necessário, dar uma bronca. A intensidade, portanto, parece ter atravessado uma geração.
Bronze no Mundial Sub-17
O primeiro grande resultado internacional de Pedro em 2026 veio em Doha. Capitão da Seleção Brasileira Sub-17, ele comandou o time que terminou a primeira fase invicto, eliminou Índia e Venezuela e chegou à semifinal contra a França.
A derrota por 3 sets a 1 tirou o Brasil da decisão. Na avaliação de Pedro, o saque brasileiro não funcionou como vinha funcionando durante a competição, enquanto os franceses conseguiram apresentar um bom nível defensivo.
O levantador saiu do Mundial também com uma percepção mais clara sobre o nível dos adversários que encontrará ao longo da carreira. França e Irã, campeão mundial, estiveram entre as seleções que mais chamaram sua atenção.
A resposta brasileira à derrota na semifinal veio rapidamente. Na disputa pelo terceiro lugar, o Brasil reencontrou a Argentina e venceu por 3 sets a 1 para ficar com a medalha de bronze.
Além da responsabilidade de distribuir o jogo, Pedro terminou o Mundial com 24 pontos: seis de ataque, quatro de bloqueio e impressionantes 14 no saque. Era a primeira das duas medalhas que conquistaria em poucas semanas.
Do Sub-17 direto para o Sub-19
Pedro praticamente não teve tempo de assimilar o bronze conquistado no Qatar. Depois do Mundial, ele, Lucas Dultra, Lucas Abreu e Lorenzo foram chamados para reforçar a Seleção sub-19 que se preparava para o Sul-Americano.
Era uma mudança significativa. Aos 16 anos, Pedro passaria a treinar e competir ao lado de atletas mais velhos. O grupo brasileiro chegou a Araguari com uma missão importante. Além da busca pela vaga no próximo Mundial da categoria, o Brasil tentava recuperar um título sul-americano que havia escapado nas edições anteriores.
A resposta foi contundente. A Seleção terminou campeã sem perder um único set. Na decisão, vitória sobre a Argentina por 3 a 0, com parciais de 25-23, 26-24 e 25-22.
Para Pedro, significou acrescentar uma segunda medalha internacional ao currículo em questão de semanas e, principalmente, viver uma experiência antecipada em uma categoria acima da sua.
Ainda aos 16 anos, ele saiu de uma Seleção na qual era capitão para outra em que precisou entender um papel diferente, conviver com jogadores mais velhos e aproveitar uma oportunidade que chegou antes do previsto.
Uma geração diferente chama a atenção de Rafinha
A convivência de Pedro com as Seleções de base também fez Rafinha observar mais atentamente a geração que está chegando. E o que ele viu o deixou otimista.
O ex-levantador acredita que, durante um período, o vôlei brasileiro priorizou excessivamente o aspecto físico na formação dos jovens e deixou alguns elementos técnicos em segundo plano.
“Tecnicamente, a gente era mais apurado. A gente tinha algumas valências que hoje, por uma questão física que os meninos têm, foram deixadas um pouco de lado. E acho errado.”
Na avaliação de Rafinha, porém, a geração atual começa a mostrar uma combinação diferente.
“Essa geração que o Pedro está participando, os meninos estão começando a vir diferentes. Tecnicamente eles estão vindo bem.”
Ele cita ponteiros, centrais, líberos e jogadores que vieram do banco para mostrar que sua análise não se restringe ao filho. Para o ex-levantador, altura e força física são fundamentais no vôlei moderno, mas não resolvem determinadas situações que continuam dependendo de repertório.
“No 23 a 23, na hora de botar a bola na mão, tem que ter técnica.”
Rafinha cita como exemplos uma bola explorada pelo oposto ou um ataque na paralela em uma situação de pressão. São decisões que, segundo ele, exigem algo que centímetros e força não substituem.
A impressão é de que a nova geração começa a juntar os dois mundos: jogadores fisicamente preparados para as exigências atuais, mas com maior preocupação também com a formação técnica.
O físico também impressionou
Outro aspecto chamou a atenção de Rafinha durante o trabalho das Seleções de base: a preparação física. O ex-jogador destaca a capacidade dos jovens de suportar uma rotina pesada de treinamentos e competições sem que isso se transformasse em uma sequência de problemas físicos. “Fisicamente, fiquei impressionado.”
Segundo ele, mesmo nos períodos de descanso Pedro recebe uma programação para manter o trabalho, naturalmente com uma carga menor.
Para Rafinha, essa combinação entre desenvolvimento físico e técnico é justamente um dos motivos para olhar com atenção para os jogadores que estão surgindo. “Eles estão juntando as duas coisas.”
E faz uma projeção sobre os atletas que hoje ainda estão abaixo dos 18 anos: há uma geração interessante sendo formada.
“Pressão não tem”
O desempenho dessas Seleções aumentou também a exposição dos jogadores. Pedro ainda tem 16 anos, mas seu nome já circula entre torcedores que acompanham a renovação do vôlei masculino brasileiro. Com isso vêm elogios, comparações e também críticas.
Ele garante que procura não carregar esse peso. “Pressão não tem.”
Pedro conta que uma das mensagens recebidas dentro da própria Seleção foi justamente confiar no trabalho desenvolvido pelo grupo.
“Nosso treinador da Seleção disse que era para acreditar, que sabia que a gente ia bem e que não era para ligar para as críticas.”
Para Rafinha, esse cenário é muito diferente daquele encontrado por sua geração. “A rede social é muito explícita, muito cruel.”
O ex-jogador admite que nunca teve grande relação com as redes sociais e que hoje é ainda mais reservado. Pedro, segundo ele, já cresceu entendendo melhor como esse universo funciona.
A preocupação dos pais é ajudá-lo a distinguir uma crítica que pode acrescentar de algo que apenas desgasta. Para Rafinha, entrar sem filtro nesse universo pode se transformar em uma “porta sem fundo”. Por isso, a família procura acompanhar de perto, conversar e, quando necessário, sugerir ao garoto simplesmente deixar determinadas coisas de lado.
“Pai sofre muito”
Se Pedro começa a descobrir a pressão de ser jogador, Rafinha conhece agora um papel que não experimentou durante a própria carreira: o de acompanhar tudo do lado de fora. “Pai sofre muito, não tenha dúvida.”
A experiência aumentou, inclusive, a admiração que ele diz ter por Bernardinho e Bruninho. Rafinha lembra da dificuldade de separar as relações de treinador e jogador das de pai e filho, principalmente quando ambos chegaram juntos ao nível máximo do esporte.
Para ele, muitas vezes se esquece o tamanho da trajetória construída por Bruninho como atleta e o que o levantador representa para as gerações seguintes. Na própria relação com Pedro, Rafinha estabeleceu um limite.
“Eu tento ajudar da melhor maneira possível. Nunca me meti em questão técnica. Acho uma afronta. Os treinadores sabem muito bem o que fazer.”
Pode existir uma observação aqui ou uma sugestão ali, mas ele procura respeitar a hierarquia de quem trabalha diariamente com o filho. E considera que Pedro está em boas mãos.
Rafinha destaca a estrutura e os profissionais do Minas, além das comissões técnicas das Seleções Brasileiras. Do outro lado, reconhece no filho uma característica fundamental para aproveitar esse ambiente: saber ouvir.
Bruninho e De Cecco de um lado. Weber e Maurício do outro
Quando o assunto são referências na posição, as duas gerações também aparecem. Pedro não demora para apontar os levantadores que gosta de acompanhar: “Bruninho e De Cecco (o argentino Luciano De Cecco).”
As referências de Rafinha vêm de outra época. “Sou muito fã do Weber. Sempre me espelhei nele.”
Mas há um nome que ele coloca em outra prateleira: Maurício. “Falar que o Maurício é ídolo é complicado. Ele é extraterrestre, fora da curva.”
Rafinha conviveu com Maurício e explica a diferença de uma maneira bem-humorada. Weber representava uma referência que conseguia observar e imaginar como objetivo. Maurício, para ele, possuía algo difícil até de reproduzir.
“O Weber era mais humano, uma coisa que eu poderia almejar ser.”
Sobre Maurício, é ainda mais enfático: “O Maurício é um dom divino.” Décadas depois, o filho constrói a própria lista de referências enquanto tenta encontrar sua identidade como levantador.
Aos 16 anos, aprender também a morar sozinho
A evolução de Pedro não acontece apenas dentro do ginásio. A carreira exigiu que ele aprendesse cedo a viver longe de casa. No ano passado, já estava distante dos pais, mas morava com a avó. Agora, morar sozinho acrescentou responsabilidades bem menos glamourosas do que defender a Seleção Brasileira.
“Tem mais responsabilidade. Cozinhar, fazer as coisas de casa, às vezes lavar roupa.” É uma independência que chega enquanto Pedro ainda tem 16 anos e tenta equilibrar formação esportiva, vida pessoal e as exigências de um atleta que começa a ser observado nacionalmente.
A distância, porém, não diminuiu a presença da família. Rafinha faz questão de manter contato frequente com o filho. Ligações, mensagens e chamadas de vídeo ajudam a preservar uma rotina familiar que sempre foi muito próxima: “Faço questão de falar com ele todo dia.”
O pai lembra de uma família acostumada a estar junta, com avó, tios e os tradicionais encontros de domingo. A tecnologia virou uma maneira de diminuir a distância.
Do treino com o adulto ao sonho de jogar na Itália
No clube em que o pai construiu parte importante da própria história, Pedro começa a imaginar os próximos passos. E o time profissional do Minas já deixou de ser algo que ele acompanha apenas de longe. “Treinei uma vez no ano passado e tenho expectativa de ter uma oportunidade este ano.”
O primeiro grande objetivo está justamente ali: transformar-se em jogador profissional do Minas. Mas Pedro já permite que os sonhos avancem algumas etapas: “Quero chegar ao profissional do Minas e jogar na Itália também.”
Quando olha para o vôlei internacional, cita Itália, Polônia e França entre as grandes referências do momento. O caminho até esse nível ainda é longo. Pedro tem apenas 16 anos e pertence às categorias de base. Não demonstra, porém, qualquer pressa em pular etapas.
Por enquanto, 2026 já tratou de acelerar algumas delas. Em poucas semanas, foi capitão de uma Seleção Brasileira medalhista em um Mundial, terminou a competição como melhor sacador e, ainda com idade de Sub-17, recebeu uma convocação para subir ao Sub-19 e participou de mais uma conquista.
Tudo isso jogando na mesma posição do pai. As comparações com Rafinha provavelmente continuarão aparecendo. Pedro parece não se incomodar. Pode até ter herdado a posição e a personalidade forte. Mas já avisa que, pelo menos no saque e na defesa, é melhor que o pai.